2/04/2010

Vou deixar a rua me levar?




Sentada no meu sofá com minha inseparável Niétotchka Niezvânova ao lado, o notebook na frente, um edredom no colo e o focinho gelado do Jr. me cutucando, pedindo por carinho, olho lá pra fora. A chuva cai incessantemente, molhando asfalto, plantas, pessoas e tudo o que encontra pela frente. Há exatamente quatro horas , para quem passasse e olhasse da rua, o cenário aqui dentro de casa era o mesmo. Mas a minha visão era completamente diferente: um dia lindo de sol intenso, com um calor que chega a incomodar.

E estava aqui pensando exatamente como eu me assemelho a esse tempo. A minha característica inata é de ser sempre um sol intenso, daqueles que dá vontade de ir pra praia, tomar sorvete, distribuir sorrisos e se movimentar lentamente como num comercial de margarina... mas de vez em quando há em mim tempestades inexplicáveis e avassaladoras, com grande-número-de-mortos-e-feridos e consequências horríveis.
O fato é que tenho estado muito cansada de tudo isso. Dessa vida, dessa cidade, de seu-curriculum-é-muito-bom-mas-selecionamos-outra-pessoa-para-o-cargo...cansada dessa vida quadrada e pré-programada. Eu não nasci pra isso e isso me irrita até o último fio de cabelo.

- Mas o que você quer da vida então? - disse D.
- Não sei também! Mas eu quero descobrir o que eu quero, o que eu realmente gosto. Eu não quero chegar aos 40 e poucos anos, olhar pra trás e ver que eu trabalhei, estudei, fiz faculdade, fui para a praia e só. Eu quero conhecer lugares, conhecer gente nova, sentir cheiros diferentes, gostos diferentes, ouvir línguas completamente estranhas, acordar com a neve caindo em mim, ter que dormir na rodoviária. Eu quero viver de fato, e não só ter tido uma vida.
- É o que todos queremos.

Sim, é fato. É o que todos queremos, mas que poucos conseguem. E eu quero estar nesses poucos.
Lá fora já não há mais tempestade, a chuva se abrandou um pouco e o tempo parece mudar, melhorar. Dentro de mim também.



"Ele ama o ato de alcançar, mas, alcançar de fato,
nem sempre. E isto, está claro, é ridículo ao extremo."
Dostoiévski.
SHARE:

Nenhum comentário

Postar um comentário

© Carol Candido. All rights reserved.
Blogger Templates by pipdig