4/12/2019

Quem é que paga a conta da saudade?


Hoje a saudade apertou. Apertou como há tempos não apertava. Ela sempre lateja um pouco no dia a dia, nos momentos de descuido. É como aquela dor no ombro que nos faz tomar cuidado com cada movimento, mas aparece de supetão em um momento de distração.
São Paulo, Brasil, minha primeira casa.
A decisão de morar fora tem suas dores e suas delícias. Confesso que as delícias são de fato muitas, mas também é preciso falar das dores. É preciso falar da sensação estranha de acostumar-se a ser um rosto na tela do celular, uma foto enviada por whatsapp, uma mensagem de áudio contando sobre a rotina.
É preciso entender que as mensagens ficarão mais escassas, porque a vida segue e, na nossa usual pressa diária, é normal nos adaptarmos com o “deixa para depois”. Depois eu mando a mensagem. Depois eu digo o que pensei. Depois eu falo o que sinto.

Genova, Itália, minha segunda casa.
É preciso se habituar a ver que a vida das pessoas continua mesmo quando você não está lá. Aniversários, festas, nascimentos, mortes. O mundo não para porque você decidiu ir para outro lugar. 
É preciso se acostumar a deixar de ser uma presença e virar uma esperança: “tomara que esse ano você consiga vir”, “tomara que eu consiga ir te visitar”. 
É preciso se acostumar a perceber que as piadas dos seus amigos nem sempre farão sentido porque você já não está mais lá dividindo o cotidiano deles.
E é claro que você constrói uma família nova no lugar que escolheu para chamar de lar. Mas é preciso entender que, uma vez que você deixa seu bairro, sua cidade, seu estado, seu país, você nunca mais estará completo. 
Dublin, Irlanda, minha terceira casa.
Se hoje você voltar para seu lugar de origem, sentirá falta do que deixou aqui. Das pessoas que conheceu em sua nova cidade. Daquele restaurante que você descobriu ao acaso e se tornou o ponto turístico para cada amigo que vinha visitar.
Talvez morar fora seja acostumar-se com a sensação de ser incompleto. É acostumar-se a encher a mala de lembranças felizes, mas também de angústias e anseios. É acostumar-se a ganhar experiências e renunciar a momentos.
E pensar que, quando a saudade apertar, é preciso ter coragem, respirar fundo e seguir em frente.

Lisboa, Portugal, minha quarta e atual casa.
“O poeta que disse que a saudade é um
 pungir delicioso não consultou meu coração”.
[Machado de Assis]


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I am feeling homesick today. I haven't felt a pain like this in such a long time. It always hurts a little bit on my daily life, if I am not careful enough to suppress it. It is a feeling comparable to a painful shoulder that always makes us anticipate every move, but suddenly hurts harder if, by any reason, we get distracted.

São Paulo, Brasil, my first home.
Living abroad is a deal of both joy and pain, and although it may seem like that the joy is bigger than the pain, the latter still exists and must be acknowledged. We must acknowledge how weird it is getting used to being just a face on a screen, a photo sent by WhatsApp, an audio message talking about our daily life.

We must understand that even these text messages will become more scarce, because still goes on so fast that it is usual to think that we can do everything later. I'll send this message later. I'll tell someone what I think later. I'll confess my feelings later.

Genova, Italy, my second home.


We must get used to seeing how people's life still goes on even when we are not there. Birthdays, parties, deaths. The world won't stop just because you have decided to move to a different place.
We must get used to being less of a presence and more of wishful thinking: "hopefully you will be able to come home this year", "hopefully I'll go visit you".
We must get used to the fact that our friends jokes may not be as familiar to us now, because we are no longer there beside them to understand every single aspect of their lives.

Even if we build a new family in our new home, it is vital to know that once you live your neighbourhood, your city, your state, your country, you will never feel complete again.
Dublin, Ireland, my third home.

You must understand that even if you go back home today, you will miss everything that you will leave behind where you live now. The people you've met. That restaurant that you found by chance and is now your first choice whenever a friend comes to visit you.
Maybe living abroad means getting used to being incomplete. Getting used to pack our good memories, but also our anguishes and wishes. Getting used to live new experiences and giving up on moments.

And it is also getting used to thinking that when homesickness knock us down, we have to have the courage to get up again, breathe three times and carry on.


Lisbon, Portugal, my fourth and current home.

“He thought that he was sick in his heart
 if you could be sick in that place.” 

[James Joyce]
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3/21/2018

Por que Marielle incomodava tanto?

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Façamos um breve exercício. Abra agora o Google e digite os termos jovem é morto por pm, exatamente nesta ordem. Aparecerão algumas notícias que, provavelmente, são as mesmas que tenho em frente a mim enquanto escrevo esse texto.
A primeira tem como título “Jovem é morto pela PM com quatro tiros nas costas” e conta a história de Ítalo Silva Gonzaga, que foi morto pela Polícia após sua moto se chocar contra uma viatura. Ítalo tinha 18 anos e era entregador de pizza. Negro.
Na notícia seguinte temos um jovem que saiu para comprar bolacha e foi morto pela polícia militar. Luan Gabriel tinha 14 anos e era branco. A notícia se intitula “Corpo de jovem morto em abordagem da PM em Santo André é enterrado”.

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3/07/2018

A grama do vizinho muito provavelmente não é mais verde que a sua.

7:15 da manhã, o despertador toca. Gabriela se arruma rapidamente e senta na mesa da cozinha para tomar o café-da-manhã, enquanto checa suas redes sociais. Natasha, sua amiga de escola que trabalha como Designer freelancer, provavelmente ainda estaria dormindo. Tão bom não ter hora certa para acordar e poder trabalhar de casa, sem ter que dar satisfação para ninguém. Celular no bolso, chaves na mão, Gabriela se encaminha para o ponto de ónibus, lá vai Gabriela rumo à empresa que trabalha como gerente de Marketing.
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